segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Ônibus de luxo. Mas quando?

06/12/2010
Correio Braziliense

Mesmo em dificuldades financeiras e a poucos dias do fim do governo interino de Rogério Rosso (PMDB), a Sociedade de Transportes Coletivos de Brasília (TCB) decidiu comprar ônibus novos e luxuosos. A estatal terá em sua garagem cinco veículos executivos. A empresa pagou R$ 446 mil por unidade, de um total de R$ 2,23 milhões.

A justificava para tal despesa é a criação de uma linha entre o Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek e o Setor Hoteleiro. No entanto, os coletivos só devem ser entregues no fim deste mês, últimos dias das atuais administrações da TCB e do Distrito Federal. A empresa nem sequer tem motoristas treinados para a linha executiva. E ninguém sabe quando o serviço realmente entra em operação.

A TCB adquiriu os cinco ônibus por meio de pregão eletrônico. A nota de empenho em favor de uma revenda de veículos da marca alemã Mercedes-Benz foi emitida em 17 de agosto. A partir de então, a empresa ganhou 120 dias para entregar os veículos. O prazo vai até a segunda quinzena deste mês, véspera do início da administração Agnelo Queiroz (PT).

No entanto, nem o secretário de Transportes, Paulo César Boberg Barongeno, sabe precisar quando os ônibus estarão prontos para circulação e a data do início do serviço. "Tudo depende da chegada dos veículos. O fornecedor ficou de nos entregar até o fim do mês. Faltam detalhes, como a fixação do layout. Depois, haverá o processo de cadastramento no DFTrans e no Detran", explica.

Pelos planos da Secretaria de Transportes, a passagem dos ônibus executivos do aeroporto custará R$ 8. Mas nem o valor está definido. "É uma estimativa", ressalta Barongeno. A primeira viagem partirá do terminal aéreo às 5h30 e a última, às 23h30. Os veículos passarão pelos eixos W e L, pela Rodoviária do Plano Piloto e pelos setores hoteleiros. O percurso (ida e volta) durará 80 minutos.


Pressão

Essa é a segunda tentativa de criar uma linha executiva ligando o Aeroporto aos principais hotéis da capital, como existe há anos nas principais cidades do país e do mundo. Da primeira vez, em julho de 2008, a TCB também comprou cinco veículos de luxo, por R$ 332 mil cada. Mas bastou um protesto dos taxistas que monopolizam o transporte no terminal aéreo para o projeto ser engavetado.

O então governador José Roberto Arruda (ex-DEM) desautorizou publicamente o seu secretário de Transportes, Alberto Fraga, e mandou-o dar outro fim aos veículos executivos. Os ônibus passaram a operar uma linha que circula pela Esplanada dos Ministérios e os taxistas continuaram a faturar, praticamente sem concorrência, com viagens de R$ 35 em média até os hotéis do Plano Piloto.

O atual secretário espera uma nova resistência dos taxistas, mas garante a instituição da linha Aeroporto-Setor Hoteleiro. "Haverá resistência porque haverá uma concorrência. Mas não podemos cometer o erro do passado, até porque as características dos veículos adquiridos agora impedem que sejam destinados ao uso de uma linha convencional", ponderou Barongeno.

Além do ar-condicionado e do piso baixo dos ônibus comprados em 2008, os modelos adquiridos em 2010 têm grande espaço para malas e outras facilidades destinadas a passageiros com grande quantidade de bagagem. Fotografias dos veículos no fornecedor não foram permitidas, mas o Correio conseguiu cópia do prospecto do ônibus executivo aprovado por técnicos da Secretaria de Transportes.


Bandeira 2

Em outra iniciativa para facilitar a vida dos usuários do Aeroporto de Brasília, no início de 2009, o GDF anunciou a imnplantação do serviço de táxi pré-pago no terminal. A ideia era instituir um sistema semelhante ao de várias cidades, como Rio de Janeiro e São Paulo, onde o consumidor sabe o preço da corrida antes de entrar no carro. Mas, novamente, por conta da pressão do sindicato, o governo desistiu da medida.

Agora, a Secretaria de Transportes diz estar cumprindo um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) assinado por Fraga com a Promotoria de Defesa do Consumidor (Prodecon) em março, poucos dias antes de ele deixar o cargo em função dos escândalos provocados pela Operação Caixa de Pandora. Fixaram o prazo de 180 dias para início da operação da linha de ônibus executivos no aeroporto.

O mesmo TAC, firmado entre a Secretaria de Transportes e a Prodecon, previa a regularização dos táxis no Aeroporto. A secretaria se comprometeu a cadastrar todos os taxistas do terminal, permitir a parada de motoristas autônomos e de empresas de radiotaxi no estacionamento coberto e suspender a cobrança de bandeira 2 nas corridas originadas ou terminadas no aeroporto.

Contudo, no caso do fim da Bandeira 2, os taxistas também saíram vitoriosos, com apoio da Câmara Legislativa do DF, atolada nas denúncias de corrupção da Caixa de Pandora. Dias após a assinatura do TAC, os deputados distritais aprovaram o projeto de lei que manteve a cobrança de bandeira 2 para qualquer viagem de ida ou vinda do aeroporto.


Percurso restrito

A TCB iniciou a operação dos primeiros ônibus de piso baixo com ar-condicionado no Distrito Federal em 19 de agosto de 2008, com os veículos distribuídos nas linhas 108 (Rodoviária-Esplanada dos Ministérios) e 108.3 (Rodoviária-Esplanada dos Ministérios-STJ-Píer 21).

A empresa não comprava ônibus novos desde 1996.


MEMÓRIA

Patrimônio dilapidado

Fundada em 8 de maio de 1961 e iniciando as operações em 1º de junho daquele ano, a Sociedade de Transportes Coletivos de Brasília (TCB) é a mais antiga empresa do ramo na capital do país. Ela atingiu o apogeu nos anos 1970, quando foi considerada modelo nacional, sendo pioneira no uso de transmissão automática em ônibus. Chegou a ter mais de 300 veículos.

No entanto, nas três décadas seguintes, a estatal passou por um processo de sucateamento. Em 2001, o então governador Joaquim Roriz anunciou a sua privatização. A Câmara Legislativa aprovou a ideia. A partir daí, a empresa perdeu suas fontes de renda e elevou os prejuízos ao governo.

No fim de dezembro daquele ano, Roriz autorizou o repasse das linhas da TCB à iniciativa privada por meio de uma concessão de 30 anos. Em outro decreto outro, assinado em janeiro de 2002, estava prevista a venda de todo o patrimônio da empresa, incluindo as garagens, móveis, ônibus e linhas.

As melhores linhas foram passadas para empresas privadas, como a Expresso São José e a Viva Brasília, do ex-senador Valmir Amaral (PMDB), aliado de Roriz.

Ainda com a sede no Setor de Garagens Oficiais Norte, a TCB hoje tem 33 ônibus cadastrados no Transporte Urbano do Distrito Federal (DFTrans), 180 funcionários, e apenas duas linhas, a 108 e a 108.3. A empresa transporta cerca de 20 mil pessoas diariamente.
 

2 comentários:

Luís Gustavo disse...

Eita que esse Roriz merece uma viva!!!

Luís Gustavo disse...

Eita que esse Roriz merece uma viva!!!